Posted by on ago 7, 2015 in

Documentário + Ficção. 70′ – 2017.

Da janela de seu apartamento, morador do centro de Porto Alegre tenta flagrar com sua câmera a ação do tempo.

Sobre o projeto

O longa-metragem Mirante, de direção de Rodrigo John e produção da Osso Filmes, vem sendo registrado há 10 anos a partir da janela do 17º andar de um edifício no Centro de Porto Alegre. O filme foi exibido em processo no Atelier Subterrânea (2011), no Cine Esquema Novo (2013) e no Plataforma Lab (2014), em versões inteiramente distintas umas das outras, assim como da montagem que encerrará o processo. Em 2015, Mirante foi contemplado no edital da Sedac -11/2014- Concurso Pró-Cultura RS, em parceria com o Fundo Setorial do Audiovisual. A previsão de lançamento é 2017 pela distribuidora Lança Filmes
Mais sobre o projeto
Em 2004, Rodrigo John se mudou para um apartamento no 17º andar de um edifício no centro de Porto Alegre e passou a registrar a cidade desde a janela. Logo, o passatempo virou obsessão: ruas, janelas, viadutos, rios, carros, bicicletas, barcos, aviões, pássaros, insetos e pessoas. Uns apenas passam: estudantes, bancários, vendedores, dentistas, lixeiros, papagaios, turistas. Outros ficam por um tempo: camelôs, prostitutas, ladrões, desocupados, amantes, pássaros, mendigos. Anoitece e cada uma das centenas de janelas que acendem tem uma história para contar. Normalmente incompleta, apenas sugerida, mas quase sempre reveladora. Mesmo quando vistos de longe, diminuídos pelas dimensões da arquitetura ou escondidos pelo pudor, evocam relações de afeto e poder. Mesmo quando não se dão conta disso, estabelecem diálogos com vizinhos e com a própria arquitetura. Refletido na janela e gravado pelo áudio, o interior do apartamento também interage com eles. A solidão das personagens dá lugar a frágeis tentativas de diálogo.  Desde o inicio, o filme evita o processo tradicional de realização: roteiro, orçamento, cronograma, equipe. A ideia é que o processo defina o resultado e não o contrário. Com o tempo, fica claro que o filme é sobre a própria passagem do tempo. Esta premissa possibilita a experimentação com a forma, tanto nas técnicas de captura – que incluem pin-hole, timelapse, câmera lenta e a filmagem em diferentes bitolas – quanto na narrativa – que vai sendo construída na montagem em paralelo aos registros. Vista com o distanciamento destes dez anos, a linha de tempo traz claramente impresso um fundo histórico. Uma certa euforia desenvolvimentista e o crédito facilitado ajudaram a colorir a fachada dos prédios e cavar espaço na zona urbana caoticamente ocupada para mais antenas, paredes, chaminés, puxadinhos, viadutos, prédios e um estádio. A extração de areia para a construção civil alterou as margens das ilhas do Delta do Jacuí. Incêndios em favelas cresceram proporcionalmente à especulação imobiliária. Passeatas que antes aconteciam de forma intermitente e isolada – professores ou ciclistas ou sem-teto ou sem-terra – se concentraram e intensificaram até junho de 2013, quando foram fortemente reprimidas, transformando o entorno em campo de batalha. O discurso da tv aberta, fragmentado em telejornais, novelas, programas de auditório e outros, também traz a tona nossas contradições, incorporando elementos trágicos e cômicos para a costura das diferentes camadas narrativas do filme. A guerra que coloca em chamas o centro da cidade, forjada a partir de acontecimentos reais como incêndios e represálias policiais, escancara o descompromisso do documentário com os fatos. Ao contrário, interessa como os fatos são vistos, contaminados pelo ponto de vista do mirante. Quem vê, de onde vê,  altera o que é visto. Mediado pela câmera, com seus efeitos e defeitos, o próprio registro já parte da transmutação da realidade. Escamoteado pela lentidão ou rapidez, o tempo age furtivo, espalhando sujeira na pintura nova, vincando a pele quando não estamos olhando pro espelho, e roendo como cupim, seja o amor, a fé ou a vida. O tempo de fora e o de dentro não sincronizam. Passado (memória), futuro (desejo) e presente (realidade) se confundem no abismo entre nosso tempo e o tempo do mundo. É este abismo que estrutura a montagem. Um pouco ao modo de filmes que buscaram uma linguagem pura do cinema, como “Berlin – Sinfonia de uma metrópole” e “Um homem com sua câmera”, Mirante poderia ser classificado como um documentário musical sobre a cidade e o tempo.